PREFÁCIO

 

Quem é que, na vida, nunca foi agraciado com um par de chifres? Quer seja daqueles de rosca, cuja raiz ultrapassa o âmbito da caixa craniana e vai atingir em cheio o coração - deixando no sujeito a premente vontade de se enterrar vivo, se enforcar num pé de alface ou se afogar numa banheira de cachaça, ou quem nunca levou um simples fora, quando se achava o tal, durante um arrastado de asa pros lados de alguma criatura do sexo oposto?

 

Como a maioria de nós não é deficiente auditivo -graças a Deus! -, nessas horas desilusionativas é imprescindível uma trilha sonora adequada: páginas melódicas que, através do exemplo de vida dos respectivos compositores, venham consolar e ajudar a amenizar a dor provocada pelo nascimento de indigitadas "gaias" na testa do cidadão.

 

Para isso e por causa disso, principalmente, é que foi criada a dita música brega, ou seja, o indivíduo que já vive no mister artístico-criativo-lítero-musical, quando se vê afligido por qualquer tipo de traição amorosa e, logicamente, já tendo certas tendências corníferas, procura logo extravasar sua dor nos versos e notas de alguma canção. Eu tenho a impressão que é assim.

 

Pois bem, agora vem esse menino, o Thiago de Góes e faz a viagem de volta, isto é, depois de ter, possivelmente, usado de toda uma gama de pérolas do cancioneiro bregoriano nacional, e passado a limpo prováveis chifres e desilusões chamegativas pessoais, resolveu juntar algumas dessas peças e desenvolver estórias que podiam, muito bem, ter vindo a inspirar a confecção de cada uma das ditas cujas.

 

E aí é que está o supimpa e o bacana na idéia do autor! Esse é o tipo da inventiva altamente 100%!


- Mas é óbvio! Diria o leitor.

- Depois de alguém descobrir a pólvora a gente acha a coisa mais clara do universo. Diria eu.


Tenho certeza que todo mundo - e a mulher de seu Raimundo -, ao ouvir uma música qualquer, seja ela corneante ou não, há de tecer, no íntimo de seus grigumilhos imaginativos, algum enredo. Agora, inventar um livro desse quilate e com tal categoria escrevinhatória, só o
Thiago de Góes.


No que eu fui lendo cada um dos vinte e tantos contos bregas aqui apresentados - eu que já me embebedei, já me emocionei e já curti muita dor de cotovelo ao som de peças como Eu te peguei no flagra, Meu ex-amor, Pare de tomar a pílula, A última canção, Sendo assim ou Cadê você, por exemplo -, fui registrando o ]criado invencionativo do Thiago para cada um desses clássicos, que agora, certamente, serão definitivos no meu imaginário.

 

Por fim, aconselho ao leitor, seja ele corno ou esteja na dúvida, fazer a leitura dos Contos bregas acompanhado de uma dose de cana, um tira gosto de sua preferência, uma radiola e os respectivos elepês. E veja se não é muito ótimo demais.

 

Falcão – Cantor Brega