O AMOR E O PODER
“Como uma deusa, você me
mantém. E as coisas que você me diz me levam além” Interpretada por Rosana
Composição: C. de
Rouge/G. Mende/J. Rush/M.S. Applegete - Versão: C.Rabello
SEGUNDA-FEIRA
A Vós, que sois dona dessa voz
imaculada que se propaga pelos ares no intransponível espaço entre vosso
banheiro e meu quarto de dormir; a Vós, que entoais esse canto mavioso, com a
brandura dos anjos celestes, enquanto ensaboais vosso corpo, fazendo-me invejar
imensamente as espumas que acariciam vossa pele; a Vós, que não sabeis de minha
existência, muito embora sejais a razão de meu ser; a
Vós, enfim, formosa deusa de meus dias, dedico estas esperançosas palavras de
adoração.
Cantai sempre, ó musa que me inspira
devaneios. Deixai que vossa voz doce invada os cantos de vossa humilde
vizinhança. E quanto a mim, se porventura suspeitardes que vos ouço acometido
de uma ânsia avassaladora, não me condeneis, contudo. Ao contrário, tende
clemência de vosso querido servo.
TERÇA-FEIRA
Perdoai-me, ó
santa que me tentais. Bem sabeis que a ninguém será
possível resistir às seduções de vosso canto. Considereis a mim como simples
refém de meus desejos e julgai-me incapaz de tomar sãs providências. Entendei,
portanto, esta minha condição de escravo como atenuante de minha ousadia.
Agora, pois, vos confesso meu
pecado. Comprei uma luneta! Isso! Uma linda luneta, capaz de aproximar-vos de
mim, eu que não sou digno de vossa presença, mas farei de tudo para consegui-la.
Cantai, cantai, cantai, ó musa de
meus olhos! Cantai mais alto, cantai de olhos fechados, cantai de janelas
abertas, cantai como nunca, cantai para sempre, enquanto vos observo, enquanto
vos devoro, enquanto vos seco, enquanto vos sorvo. Eu, vosso eterno súdito!
Isso, ensaboai
vossa pele assim dessa maneira formosa, deixai que este líquido insípido que
vos rega umedeça a candura de vossas ancas. Isso, minha deusa... Presenteai-me
com o doce privilégio de encarar vossos pêlos e curvas e os recônditos íntimos
de vosso corpo sedutor.
Mas, por Deus, o que estais a fazer?
Não, por misericórdia, isso não! Não cometeis tamanha insânia, não sejais assim tão impiedosa, não cerreis esta janela. Não,
não, não, mil vezes não! Não cerreis esta janela...
QUARTA-FEIRA
Vós, que outrora cerrastes vossa
janela, não imaginais o quão me faríeis feliz se a abrirdes novamente. Ando
pensando em vós, acaso não sabeis? Venho reunindo forças, criando coragem para
vos abordar.
Não vos espanteis se um dia
receberdes a inesperada visita de um falso entregador de pizza. Serei eu, vosso
servo, que vos abordarei. Aliás, não agüento mais tanta espera. Hoje mesmo
cuidarei disto.
Assim que terminardes vosso banho,
esse que teimais ainda tomar em resguardo, tocarei
vossa campainha, antes mesmo que possais tomar de vossas vestes, e assim me
atendais enrolada em vossa toalha, na altura dos seios e dos meus impuros
desejos sacrossantos.
Rogai por mim, ó santa que me
tentais!
QUINTA-FEIRA
Por muito pouco, escapastes vós. Eis
que o porteiro de vosso templo inventou, não sei por qual razão, que não há
inquilinos em vossa morada. Estás enganado, argumentei. Ele insistiu. Tive uma
idéia.
Vós acreditais que afirmei estar
interessado em alugar vosso teto? Vede vós as mentiras que
sou capaz de proferir para que possa adentrar em vosso mundo. Não, ele
disse. As chaves estão na imobiliária.
Ir-me-ei. A fúria me consumiu e
voltei bufando de raiva para meus aposentos. Mas então vosso banho já
terminara.
Quando, ó santa que me tentais,
concedereis o direito de vos ter?
SEXTA-FEIRA
Ouvistes, enfim, minhas preces e
deixastes aberta a janela. Ah... Sabeis que subornarei aquele porteiro infame
que teima em proibir-me de ter convosco? Sabeis que preciso desesperadamente de
vós? Sabeis que preciso tocar naquilo que apenas vejo? Ah, deusa minha, por que
me torturais tanto? Não fujais vós de mim, pois sou teu servo e a vós daria o
mundo se dele me apropriasse.
SÁBADO
Todo mundo tem um preço, exceto vós,
que estais muito acima destas vis questões pecuniárias. Paguei caro pelo
direito de adentrar em vosso templo. Vasculhei vossos cômodos, cheirei vossas
vestes, deitei em vosso leito sagrado... E, principalmente, aguardei por vós. E
como aguardei! Horas e mais horas, mas vós não aparecestes... Acaso fugistes de
mim?
DOMINGO
Sabeis que me julgam louco? Querem devolver-me
àquele hospital ridículo. Alguém me denunciou. Suspeito daquele porteiro
imbecil. Mal sabem que vasculhei vossos cômodos, que cheirei vossas vestes, que
descansei em vosso leito, que encarei vossos recônditos íntimos. É porque não
ouviram vosso canto e nem viram vossas ancas ensaboadas, que vos julgam apenas
um subproduto de uma mente insana.
São hereges, nada
mais. Hereges inescrupulosos, vazios de sentimento. Não entristeçais, se vos
ignoram. Eu bem sei que existis, que vos ensaboais nas belas tardes
ensolaradas, enquanto entoais estes celestiais versos, mantras que me invadem o
coração.
Protegei-me deles, ó deusa de meus
dias, que tentarão prender-me em jaulas que se vestem, e me farão engolir
alucinógenas pílulas, e tentarão me confundir com poderosas
cargas energéticas.
Protegei-me deles. Contudo,
perdoai-os. Eles não sabem o que fazem...