EU NÃO SOU CACHORRO, NÃO!

Por Thiago de Góes

 

“(...) pelo amor de Deus, eu não sou cachorro, não!” (Waldick Soriano)

 

Um latido forte arrancou-me do sono profundo, que me fazia roncar numa rede posta no alpendre da casa de praia. O sol da manhã ainda não me invadira os olhos, o que me despertaria lenta e gradualmente, entorpecido pela preguiça. Aquele latido de cão vadio parecia gritar-me aos ouvidos: “Acorda!”, “Acorda!”. Então me despertei de súbito, assustado.

 

Enquanto espreguiçava-me e retirava remela dos olhos, o animal não parava de latir. Em princípio, suspeitei ser aquela uma atitude agressiva ou mesmo um pedido de comida, ainda que não muito educado. Mas dada a insistência do cão, e visto que ele intercalava seus latidos com pequenos deslocamentos para o lado, concluí que ansiava por mostrar-me algo.

 

Confiante no adágio popular “cão que ladra não morde”, apanhei umas bananas na cozinha, para enganar a fome, e pus-me a seguir o animal. Praia seca, livre de veranistas e turistas. Permiti às pequenas ondas, que se desmanchavam geladas na areia, alcançarem a sola de meus pés, enquanto ao longe, caminhava o cão.

 

O mar é destes monstros que não nos deixam esquecer da imensidão do mundo. Caminhava perdido nestas vãs reflexões, observando as mudanças nas formas das espumas das ondas, assim como costumam fazer as nuvens, quando as damos a devida atenção.

 

Na ponta da praia, onde havia apenas um casarão distante, algumas pedras, rochas e recifes. Foi para este pedaço do mundo, isolado da grande civilização, que o cachorro me guiou. Ele mantinha o focinho no chão, já nas proximidades da residência. “Quem sabe esteja farejando algum tesouro perdido”, pensei com esperançoso senso de humor.

 

Então começou a latir e a cavar. Observei. Cavava tão rapidamente que fazia voar os grãos de areia por entre suas pernas de trás. Quando estava já a uma relativa profundidade, vi surgir um vermelho escuro estampado numa madeira velha. Era a tampa de um pequeno baú clamando por ser aberto. Que guardaria? Um caderno. Um diário. Segredos...

 

Apenas seis dias de segredos estavam escritos. Nas primeiras páginas, a letra era escura e perfeita. Já nas últimas, trespassava as linhas, ora pra baixo ora pra cima, como uma agulha a coser uma peça de roupa. Dir-se-ia então uma letra trêmula, irregular, escrita às pressas, por vezes quase incompreensível. Transcrevo a seguir o conteúdo deste diário, que tanto me afetou a imaginação.

 

“DIÁRIO DE VALDIR SOLANO

 

Segunda-feira

 

Se ao menos ela me desse um terço do amor que tem por aquele cachorro asqueroso, eu seria o homem mais feliz do mundo. Quando nos casamos, achei de muito bom grado comprar um cão para nos servir de guarda. Mas acontece que ela o encheu de tantos mimos e cuidados, que ele foge ao menor sinal de um gato. O único ser vivente para quem ele dirige seus rosnados e latidos sou eu.

 

Os pratos de ração e leite são postos antes mesmo de nosso café da manhã. Hoje, por exemplo, quando terminou sua ração, postou-se próximo à mesa e dirigiu um olhar de mendigo a minha esposa, que lhe respondeu afavelmente: “Meu querido Dick está querendo um pouco de pão, está?”. Ele balançou a cabeça afirmativamente. “Então mainha dá..”.

 

Terça-feira

 

Levo já algumas décadas de vida e confesso nunca ter visto um ser humano receber tantos afagos e carícias e palavras de afeto quanto as que recebe o “querido Dick”. O pior é que não tenho direito de expressar a menor queixa, caso contrário sou chamado de insano, inseguro, ciumento, obsessivo, louco.

 

Tenho vergonha de contar o tempo em que eu e minha mulher não fazemos amor. Como se não bastasse, ontem à noite ela trouxe o “meu querido Dick” para dormir em nossa cama. Não adiantaram minhas contundentes reclamações, pois ela demonstrou-se inflexível. Disse que os incomodados que deveriam se mudar. Muito a contra-gosto tentei dividir meu leito conjugal com aquela bola de pêlos. Acordei no sofá da sala.

 

Quarta-feira

 

Minha mulher e eu estamos casados três meses. Desde então, por uma crueldade do destino, estou desempregado. Ela formou-se em Educação Física e traz dinheiro para dentro de casa trabalhando como “personal trainning”. Ela diz que tem muitos clientes importantes, aos quais oferece seus serviços em domicílio.

 

Eu tinha um excelente emprego numa construtora, que me rendia razoável quantia, capaz de oferecer-nos uma boa qualidade de vida. Decidimos antecipar nosso casamento, visto que somando as receitas de ambos, poderíamos arcar bem com todas as despesas da cerimônia e lua-de-mel. Nossa casa foi herdada de meus pais, o que já nos facilitou muito os problemas.

 

Posso dizer que ao menos de minha parte foi uma paixão fulminante. Eu estava cego. Não encontrava nela o menor defeito e deleitava-me ao sabor de suas curvas. Casamos com dois meses de namoro. Comunhão total de bens.

 

Hoje pela tarde, fiz alguns telefonemas, em busca de emprego. Nada.

 

Quinta-feira

 

A briga aconteceu hoje pela manhã e até agora ainda sinto seus efeitos. Devo supor que cometi os mais cruéis pecados, em minhas vidas anteriores, se as tive realmente. Pois que tamanha infelicidade e tormento só podem configurar uma penalidade face aos mais terríveis crimes.

 

Tudo começou quando pisei despropositadamente no rabo de Dick. Numa reação imediata, o cachorro afundou seus caninos em meu tornozelo, rosnando. Instintivamente, e gritando de dor, chutei-o com força e raiva, levando-o de encontro à parede, fazendo estalar suas costelas.

 

“Seu imbecil, você vai pagar caro por isto! Covarde! Como você tem coragem de chutar o coitado? Imbecil! Crápula!

 

Meu tornozelo derramando sangue no chão. Ardendo e doendo. Ela pegou o animal no colo e começou a acalentá-lo, como uma mãe a mimar seu bebê.

 

“Você só liga para este cachorro. Eu fui mordido profundamente, estou sangrando muito e você nem se importa! Você é insensível!

 

“Eu importar-me com você? Você não passa de um pobre coitado, inútil e incompetente. Não serve nem pra sustentar a casa. Não serve nem pra foder. Eu tenho nojo de você”.

 

“Então é isso o que você pensa de mim? Eu devia saber. Devia ter escutado meus amigos que tentaram me alertar para sua verdadeira personalidade. Como eu tenho raiva de mim por ter sido tão ingênuo. Como eu sou burro. Você não vale nada. E pensar que eu planejei passar toda a minha vida com você. Eu não ficaria nada surpreso se estes seus serviços depersonal trainning”  na verdade fossem programas altamente lucrativos”.

 

“Ah, só agora você percebeu a verdade, meu benzinho? Que sua mulher é uma puta? Pê u PU tê a TA. PUTA, com muito orgulho. Como você acha então que não falta nada nessa bosta de casa? Como você acha que eu consigo tanto dinheiro para sustentar você, seu parasita? Você não passa de um PA – RA – SI – TA!”.

 

Eu tentei responder a altura, mas não pude emitir nenhum ruído sequer. Permaneço mudo desde então.

 

Sexta-feira

 

Ontem, os dois dormiram em minha cama, novamente. Eu vim para o sofá. Ela pensa que eu não falo com ela, de pirraça. Não sabe que perdi a voz, não obstante os esforços sobre-humanos que faço para falar. Passei toda a madrugada acometido de uma febre fortíssima, acompanhada de estranhos tremores. O lençol empapado de suor. Minha barba cresceu bastante e minhas olheiras estão profundas. Já não consigo escrever com tanta fluidez, as mãos tremem.

 

Sábado

 

Fica registrado que já estou preocupadíssimo com meu estado de saúde. Continuam os tremores, a febre, o mal-estar e as dores de cabeça. Hoje pela manhã, vomitei. Sem falar nesta mudez permanente, assustadora e inexplicável. Durante alguns minutos, observei meu reflexo no espelho e vi que estou irreconhecível.

 

Não sei bem quando decidi que voltaria a falar, a qualquer custo. Durante intermináveis tentativas, tentei extrair o menor ruído que fosse, puxando a voz das tripas, como puxam suas redes de náilon os pescadores artesanais. O ser humano que me flagrasse nesse intento certamente me julgaria louco ou acometido de uma insuportável dor, tamanho o esforço e as assombrosas expressões faciais dele decorrentes.

 

Num momento de puro desespero e loucura, reuni todas as minhas forças e energias que ainda me restavam para gritar o mais alto que eu pudesse, como se fosse o derradeiro ato de minha vida, a expressão de uma revolta insana contra a  infidelidade de uma mulher incompreensível.

 

O resultado desta minha última tentativa não será crível para a grande maioria das pessoas que dela tomarem conhecimento. Não sei de ninguém mesmo que daria crédito a uma história tão improvável. Mas o fato é que após esses infernais empreendimentos para produzir algum ruído que me provasse ser capaz de expressão verbal, escapuliu-me da boca o mais aterrorizante latido de um cão vadio! Desde então, esta é a única utilidade para que me serve a boca, além de comer: LATIR!”.

 

X – X

 

Os olhos do cão observavam-me atentos quando terminei de ler aquele diário. Confesso que fiquei atordoado e confuso, não sabendo ao certo o que deveria fazer. Este cidadão chamado Valdir precisava mesmo de uma ajuda profissional de caráter urgente. A ausência do Domingo em seu diário deixou-me ainda mais apreensivo e curioso. O que teria acontecido com sua voz? Que fim teve esta infame história de amor? Onde estaria sua mulher, cujo cão deduzi ser aquele que me trouxe até ali?

 

O animal recomeçara a latir e correr, guiando-me em direção do casarão. Uma porta de madeira pintada de azul encontrava-se levemente escorada. Com ajuda do focinho, o animal a empurrou, abrindo caminho para que eu adentrasse na sala e para que eu pudesse ter acesso aos mais estranhos mistérios que completariam esta louca história.

 

Confesso que nunca vi cena tão aterrorizante em minha vida como aquela que se pôs diante de meus olhos. Nem no mais sensacionalista dos diários populares, nem nos arquivos dos mais imaginativos escritores, nem nos autos dos crimes mais violentos, poderia haver tamanha insensatez.

 

Julgava-me suficientemente forte para presenciar todo e qualquer tipo de crueldade, mas ao ver aqueles dois corpos ensangüentados e dilacerados e desfigurados, não pude evitar o vômito repugnante. Não havia sinais evidentes de resistência, o que me fez concluir que as vítimas foram previamente dopadas.

 

Há algo errado nesta história. O cão tinha o ar compenetrado e triste. Fechei os olhos e entreguei-me a mil elucubrações. Uma idéia invadiu-me repentinamente. E só então compreendi tudo o que se passara. Assobiei para o animal e disse-lhe: “Vamos, Valdir! Somente Deus poderá julgar o seu crime e levar em conta as suas razões...