APARÊNCIAS

Por Thiago de Góes

“Aparências, nada mais, sustentaram nossas vidas”. (Márcio Greick)

 

 

Da cama, a mulher ouvia o barulho da torneira da pia do banheiro, que já estava ligada há um bom tempo. “Você fez algum acordo com a companhia de água?”. Nenhuma resposta. “Você esqueceu de quanto foi a última conta?”. Nada. “Pela última vez, você não vai desligar a merda dessa torneira, não?”. Silêncio.

 

Ela foi ao banheiro e viu a seguinte cena: Em pé defronte ao espelho, o marido permanecia totalmente estático, com o rosto quase todo coberto pelo creme de barbear. A mão direita segurava a lâmina que fizera um caminho de pele entre as espumas. Elas deslizavam lentamente pela garganta, acompanhadas de uma fileira de sangue, proveniente de alguma espinha estourada. A mão esquerda tinha as palmas voltadas para o espelho, como se fosse proteger-se de algo. A boca entreaberta e os olhos esbugalhados completavam a clara expressão de medo.

 

A mulher observou-o por todos os ângulos. Ela retirou a lâmina, mas a mão do marido ficou na mesma posição. Desligou a torneira. “Que espécie de brincadeira é essa?” (...) “O rato mordeu a língua?”. (...).

 

Então ela tentou fazer cócegas, mas não surtiu efeito. Ela conhecia-o bem e sabia que ele não era chegado a esse tipo de tonteirices. Tentou lembrar-se de uma piada muito engraçada que não fosse do seu conhecimento. Mas a anedota também foi inócua.

 

“Vamos parar com essa brincadeira sem graça, meu bem?” (...) “Eu já estou ficando com medo” (...) “Fale alguma coisa, seu imbecil!”. (...) “Eu sei que você não está morto”. (...) “Pelo amor de Deus, desembucha logo, que eu não agüento mais!”. (...) “Diga que eu sou feia, insuportável, nojenta, asquerosa. Diga qualquer coisa, mas não fique calado assim, por favor”. (...) “Diga que você já não me agüenta mais. (...) Não é isso que você está querendo dizer, mas não tem coragem?”. (...) “Diga, fale, confesse. Seja sincero, Natan!”.

 

Ao ouvir seu nome, ele ganhou vida. Saiu pulando feito louco desvairado pelo quarto e gritando às alturas: “RIR, O BREVE VERBO RIR”. Desmanchando-se em gargalhadas insanas, orquestrou uma bagunça infernal. Roupas pelo chão. Travesseiros sem fronha. Lençóis na janela. Depois dormiu profundamente, no chão. A mulher chorando. Rir, o breve verbo rir...

 

(...)

 

Umas horas depois, a mulher foi até à cozinha e trouxe uma garrafa de álcool. Embebedou num pedaço de algodão e colocou-o próximo ao nariz do marido. Ele acordou, atordoado: “ANOTARAM A DATA DA MARATONA?”. A mulher, que tinha fortíssimas suspeitas de que o marido enlouquecera, já não duvidava mais.

 

“O que está acontecendo com você, meu bem?”.

“Agora eu sou ‘meu bem’. Mas antes eu era somente mais um imbecil no mundo. Faz sentido”.

Natan, você não está falando nada com nada. Houve algum problema?”.

“Primeiro: meu nome não é Natan, mas Natan. Entendeu? Segundo: houve uma solução”.

“Que solução, Natan? Você pirou de vez!”.

 

“Eu vou lhe contar tudo o que se passou, desde o início. No meu mundo, as pessoas não possuem liberdade alguma, sendo permanentemente obrigadas a imitar as pessoas do seu mundo. Não temos escolha: ou imitamos ou imitamos. Não há possibilidade alguma de desobediência, pois se trata de um encantamento inquebrável, feito por um deus para o qual a falsidade é o pior dos pecados. Esta é a grande verdade: nós fomos perpetuamente condenados a imitar todos os atos praticados pelas pessoas do seu mundo. Só há uma única saída: se alguém deste mundo tornar-se tão falso quanto às pessoas do meu, poderá haver uma troca, desde que o seu correspondente imitador seja capaz de continuar a imitação perfeitamente do outro lado”.

 

“Deixe-me ver se eu entendi direito: você é o reflexo do meu marido, que escapou do espelho?”.

“Perfeitamente. Faltou dizer que agora ele é quem está no meu lugar, imitando tudo que faço”.

“Vou ligar para o psiquiatra”.

 

“Não precisa. Prometo não repetir esta história para ninguém. Ninguém saberá que eu não sou eu. Melhor dizendo: que eu não sou quem você pensa que eu sou. Eu sou apenas um reflexo ambulante, uma sombra tridimensional, uma cópia em cores vivas. Eu sou muito melhor do que ele! Ele é o verdadeiro falso. Eu sou o falso verdadeiro”.

 

“Eu vou pedir o divórcio. Você já passou dos limites”.

 

“Se eu fosse você, eu não faria isso. Seria uma burrice completa. Minha bela, eu imito o seu marido desde que ele nasceu, muito antes de ele amá-la e, mais ainda, de odiá-la. Sei tudo sobre ele. Não percebe que eu posso imitar somente as suas qualidades, até que você esqueça de seus defeitos?”.

 

Nesse ponto, a mulher começou a enxergar alguma vantagem. Quem sabe essa loucura toda não fosse para o bem de ambos? Melhor a loucura sem defeitos do que a normalidade intragável. Então ela decidiu entrar no jogo do rapaz.

 

“E o amor? Eu serei amada novamente?”.

 

“Eu fingirei tão perfeitamente que te amo que até você e mesmo eu acreditaremos nesta doce mentira. E quando isto acontecer, quem dirá que eu não te amo de verdade? Não esquecerei de nenhuma data importante. Eu lhe darei flores, como nos primeiros meses de namoro. Serei aquele fiel romântico que você já nem lembra mais que um dia existiu. Asseguro-lhe que não só você voltará a sentir-se amada, como também ficará perdidamente apaixonada por mim. Tudo como nos velhos tempos”.

 

“Bom. Mas e o sexo? Eu sei que já não tenho as carnes macias, nem a magreza dos meus vinte anos. Você será capaz de me possuir?”.

 

“Graças aos tetos espelhados das suítes de alguns motéis, eu aprendi a fazer sexo. Sinto informar-lhe que não foi com o seu reflexo a minha primeira vez. Mas posso garantir que você é muito melhor que as amantes do seu marido”.

 

“Então vamos tirar a prova”.

 

Ela se desnudou rapidamente e pulou na cama, ainda desarrumada. Nos primeiros instantes, viu que a promessa não era de brincadeira e entregou-se intensamente, como se aquele momento de gozo fosse único e não houvesse mais nada nem ninguém no mundo. No final, ela disse que nunca havia deixado de amá-lo. Dormiram abraçados.

 

(...)

 

O grito de Natan acordou a mulher: “A DROGA DA GORDA!”. E ria mais e mais. Ele ria alto, muito alto e sem parar. Segurava um espelho por cima da mulher. Ela não podia mover-se, embora tentasse a todo custo.

 

“Você pensou mesmo que poderíamos viver aquela doce ilusão? Como você é hipócrita e falsa. Fingiu que não me acha um louco para simplesmente poder reviver mais uma vil noite de prazer passageiro. Se você não ama o seu marido, como amará o seu reflexo? Você não ama ninguém, nem a si mesma. Você acaba de atingir o limite da falsidade e vai para o lugar de onde eu vim. Você vai para o outro lado do espelho, encontrar-se com o seu marido. Juntos, vocês farão apenas o que eu e o seu reflexo quisermos. A liberdade agora é minha. Eu posso fazer o que bem entender. Eu sou livre até para errar. E os erros serão meus. Quer um conselho, minha doce cataléptica? AME O POEMA!. O verdadeiro poema da liberdade!”.

 

Cacos de espelho pela cama...