AMANHÃ TALVEZ
“Só mais uma vez, amanhã
talvez. Só mais uma vez, o amor que a gente fez.” Interpretada
por Joanna
Composição: Michael
Sullivam / Paulo Massadas
Pelo interfone, ela pediu a primeira
das três fantasias descritas na contracapa do menu. Ao lado da cama, girou um
pequeno botão, acionando o ar-condicionado. O som rouco do aparelho adentrou-se
imponente na suíte presidencial, enquanto a moça girava o botão do rádio,
fazendo soar uma antiga canção romântica.
Ela diminuiu a intensidade da luz e
manteve-se na penumbra amarga de suas recordações. Sozinha, lembrava daquele
que prometera chegar a poucos instantes, após uma longa e tensa negociação,
posta a cabo no dia anterior.
É verdade, ela ainda nutria
esperanças. Tanto que o semblante sombrio iluminou-se de vida quando por fim o
rapaz cedeu às fortes e persistentes pressões e disse cansado “está bem, eu
vou”. E mesmo quando ele acrescentou com firmeza na voz dizendo “mas é a última
vez”, ela ainda acreditava que poderia fazê-lo retroceder em suas últimas
decisões.
E no meio destas vãs lembranças, ela
ouviu soar a campanhia. “É ele!”, pensou por um momento. Era a camareira, no
entanto, que lhe trouxe a fantasia pedida. A moça agradeceu discretamente e
então começou a trocar-se.
Rapidamente livrou-se da calça blue jeans, da camisa de seda branca, e
das peças íntimas de cima e de baixo. Então se viu empunhando uma capa negra
com detalhes dourados na borda, uma diminuta calcinha, meia-calça transparente
e salientes dentes caninos postiços.
Fez pose sensual no espelho. E pela
primeira vez sentiu-se poderosa e sedutora. Imaginou que pudesse talvez
hipnotizar o seu amado, fazendo-o rastejar aos seus pés, ele mesmo a quem se
humilhara tantas vezes, implorando por migalhas de carinho. E riu-se no
pensamento do rapaz lambendo-lhe humildemente os dedões do pé.
E na fantasia esqueceu-se das tantas
vezes em que já fora traída, mesmo com as melhores amigas e
até mesmo com uma prima de segundo grau. Porém, não deixou escapar que
ele já estava atrasado em mais de meia hora.
“Não vou ligar”. Ligou. Deixe seu recado na
caixa postal.
“Você não vem? Você me prometeu que
vinha. Você me prometeu! Não faça isso comigo. Por favor, você me prometeu...
Venha, por favor. Você não vai se arrepender. Eu juro que é só por hoje. Eu juro,
meu amor. Eu juro... Nunca mais eu procuro você, eu juro. Você pode esquecer
que eu existo, mas venha, por favor. Só por hoje... Venha, eu imploro. Prometo
sumir da sua vida. Eu preciso de você. Eu preciso do seu amor. Venha, por
favor... Você me prometeu...”
Ela desligou, mas ainda disse “você
me prometeu” uma dezena de vezes, enquanto chorava aos soluços. Uma das vezes
ela gritou tão alto que teve medo de ter sido ouvida pelos vizinhos. Foi quando
decidiu pedir a segunda fantasia.
Calcinha e sutiã brancos e bordados,
um par de asas pequenas e uma auréola prateada. Ela recobrou-se um pouco e
ligou novamente. Deixe seu recado na caixa postal.
“Tudo bem, eu aceito. Você pode
fazer o que quiser. Pode ter outras mulheres, quantas conseguir. Eu não ligo,
desde que não me deixe. Pode até arranjar outra namorada e me fazer de amante.
Eu aceito deixar de ser oficial. Mas, por favor, não me abandone. Não me deixe!
Por favor! Estou aqui te esperando onde combinamos. Venha. Por favor, venha pra
mim. Te amo!”
Ela foi ao frigobar e abriu uma
garrafa de vinho tinto. A anjinha pôs a boca no gargalo e bebeu grandes goles.
O pensamento “ele está chegando” não lhe saía da cabeça. “Ele está chegando”,
mas não chegava nunca. Ela bebeu mais. E manchou de vinho a fantasia,
imaginando que ele pudesse atrair-se por aquela ninfeta angelical. Embriagou-se
rapidamente e cansou de ser santa. Pediu então a terceira fantasia.
Chifres vermelhos, rabinho pontudo e
chicote negro. Deixe seu recado na caixa postal.
“Olha aqui, seu canalha. Seu
cachorro! Seu nojento! Seu crápula! Seu imbecil! Venha logo, que eu só te quero
por hoje. Eu vou fazer miséria com você, mas depois te jogo fora. E sabe de uma
coisa? Se não quiser vir não venha. Se quiser, venha que eu vou dormir aqui.
Seu idiota! Não sabe o que tá perdendo...”
Ela desligou e deixou-se cair na
cama, os chifres perderam-se por debaixo do travesseiro. Sentiu uma vontade
imensa de vomitar, mas não conseguiu levantar-se e então fez por ali mesmo. E
dormiu por ali mesmo, no meio daquele resto de jantar requentado.
Ficou adormecida por um longuíssimo
período. Uma hora o interfone tocou. De súbito, ela acordou afoita. “É ele”,
pensou.
“Desculpe-me, minha senhora, mas o
período de seu pernoite terminou. Houve alguma consumação?”
Ela faz uma pausa e disse.
“Houve, sim.”
“O que foi?”
“Minha alma.”
“Sua alma o quê?”
“Minha alma foi consumida...”